quarta-feira, 28 de março de 2018

Filosofia

Roberto de Queiroz

Não adianta abater o abutre:
o abutre vivo a carniça extingue,
o abutre morto a carniça nutre.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Ipojuca recebe 1º Festival de Livros do Litoral Sul

Festival será realizado de 25 a 29 de outubro.


Começa nesta quarta-feira (25), a partir das 19h, no Clube Municipal do Ipojuca, no centro, a 1ª edição do Festival de Livros do Litoral Sul. O evento, marcado entre os dias 25 e 29, tem programação diversificada com debates, palestras e lançamento de livros. As atrações são gratuitas. O festival - promovido pela Associação do Nordeste das Distribuidoras e Editoras de Livros (Andelivros), com o apoio da Prefeitura Municipal - tem a missão de popularizar o livro, incentivar a leitura e aproximar escritores de leitores.

 O evento vai homenagear três grandes nomes da cultura ipojucana: os escritores Roberto de Queiroz e Everalda de Assis, e a professora Amara Consuelo Cordeiro e Lemos. Já confirmaram presença no festival os escritores Raimundo Carrero e Celso Antunes - além dos jornalistas Francisco José, Laura Muller, Carol Barcellos, e dos cantores Nando Cordel, Maciel Melo, Frei Damião Silva e Banda do Tio Bruninho.

 Com o tema “minha terra, minha gente”, o Festival do Livro do Litoral Sul dará destaque às produções culturais e literárias da região. Durante o evento, os visitantes poderão comprar livros, adquirir lançamentos, participar de sessões de autógrafos, debates, mesas-redondas, encontro com autores, oficinas, leituras, narrações de histórias e programação artística. Estandes serão divididos entre editoras, instituições e expositores de artesanato. Toda a programação ficará concentrada no Clube Municipal do Ipojuca, das 9h às 21h. 

domingo, 6 de agosto de 2017

Poema trilíngue


A intelectual e presidente da International Writers and Artists Association, Teresinka Pereira, brindou-me com mais uma tradução de excerto de meu poema A afeição do olhar. Dessa vez, para o grego, feita por Denis Koulentianos. Em fevereiro de 2013, Teresinka já havia traduzido um trecho do poema em tela para o inglês. Seguem os fragmentos das duas versões do poema em discussão (grego e inglês) e o texto original em português (na íntegra).

Looking with affection
(Fragment of “A afeição do olhar”, by Roberto de Queiroz)

Does looking show the same
affection as kissing or hugging?
There is a kind of affection
without kissing or hugging,
but is it possible to have
affection without a regard,
without to turn the eyes upon
the loved one? Maybe
the affection shows better
in the eyes than in a kiss.

                   ***

It is in looking someone
in the eyes that you may
get out of yourself and
expose your soul
to the person you love.

Free interpretation in English by Teresinka Pereira, Ph.D.
Toledo University, USA

A afeição do olhar*
Roberto de Queiroz

Seria a mesma a afeição
de beijar e de abraçar?
Existe afeição sem beijo,
sem abraço, não sem olhar,
e é possível ter mais afei-
ção no olhar que no beijar
(se houver afeição no beijo),
eia, uma vez que o olhar
evita arrostar os olhos
da afeição do oposto olhar. 

É olhar nos olhos de outrem
sair de si mesmo, e quem sai
expõe ao extremo a alma,
numa exposição una e
diáfana ao oposto olhar,
em que há coisa boa e
autêntica: a afeição dos olhos,
que muito espetacula e
transparece o curar da alma
do olhar que vem ou que vai.

É isso, a afeição do olhar
impetra algo curioso,
onde a esquiva dos olhos 
é um sentir de amoroso,
e é bem certo que o não olhar
é um gesto mui carinhoso:
demonstra (quiçá timidez)
afeto, algo um tanto manhoso,
que não quer talvez se mostrar
e não dá a ver que é medroso.
______
* Poema classificado em 1º lugar no III Concurso de Prosa e Poesia da FAMASUL, Palmares, PE, 2003,  integrante da antologia Poesias brasileiras v. II: Prêmio Ebrahim Ramadan de Poesias (São José do Rio Preto, SP, Editora Rio-pretense, 2003, p. 64) e publicado na revista internacional de arte literária The Moon Light of Corea, n. 66, p. 47, em 09/02/2013.

domingo, 8 de maio de 2016

Minha mãe

Roberto de Queiroz

Minha mãe é mais bonita,
ela é linda que nem ouro:
não apreça seu amor,
pois ela me ama sempre,
na tristeza ou na dor.

(Em A nudez de escrever, Recife, PE, Edição do Autor, 2012, p. 53)

sábado, 5 de março de 2016

Presente do indicativo

Roberto de Queiroz

Só sei do momento presente,
do passado não ouso saber,
do futuro não sou vidente,
esse eu me fiz esquecer.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Mesa posta

Roberto de Queiroz

Diz um adágio popular que beleza não põe mesa, e diz um adágio afrodisíaco que feiura não põe mesa. A conclusão é esta: beleza não põe mesa, feiura também não. O que, na verdade, põe a mesa é a cadência dos neurônios em sintonia com a cabeça, o tronco e os membros do corpo. O pôr a mesa não é, então, tarefa de beleza ou de feiura. Mas como seria, se a beleza e a feiura não são concretas? Ambas são meros substantivos abstratos e, sozinhas, não têm existência própria: precisam apelar para o adjetivo para existir. Essa derivação adjetivo-abstrata, por si só, não é capaz de pôr a mesa. Enfim, o pôr mesa é ação da labuta inconclusa das mãos, e a ação de pôr a mesa, depois de concluída, resulta em mesa posta.

domingo, 15 de novembro de 2015

Pot-pourri

Roberto de Queiroz


I

O olho do sol do polo Norte se fecha, congela o vento e cristaliza a neve: açúcar do confeito da Terra.

II

O olho do segundo sol se abre e realinha a órbita dos planetas: marionetes do dedo do Universo.

III

A mistificação do purgatório prognostica a idealização do inferno de Dante: consequência reflexa de crenças milenares.

IV

O achamento do paraíso perdido e a perda do paraíso recuperado de Milton ensaiam sobre a cegueira de Saramago: retrato fidedigno do materialismo.

V

Na taça de carne de Salomão, o vinho é certamente mais aromático e mais saboroso que nos pseudocristais modernos e provavelmente há ali toxidade zero: êxtase cromático do cântico dos cânticos.